27 de janeiro de 2012


A trajetória é longa
e a memória, curta;
se há todo o tempo do mundo,
o medo é que me furta.
Coroa de pedra não me faz mais rei
O peso da fome não me faz menos puta
Não é peso de fardo que me mede a conduta
- é labuta. É luta.

Se o torto querer me tira o digno
mais turvo é saber o mundo pronto;
queria calar pra esconder o assombro...
queria gritar pra mostrar que assumo.
Diploma na mão não me faz mais cristo
O peso do receio não me faz menos muda
Não valho o que peso em sonho e riso
- é fuga. É culpa.
.

18 de janeiro de 2012


Finjo aprazimento no parto acadêmico
pra camuflar o verdadeiro (des)prazer que,
voluntaria e atemporariamente, gesto:
versar sobre o que amo e o que me dói
- que são sinônimos,
mas não constam na bibliografia.
.

14 de janeiro de 2012


Ah, não, eu não poderia.
Afirmar não me é de competência.
Compete a mim não competir
com que tem ouvidos turvos.
Os meus também o são;
diagnóstico tardio de obstrução egóica.
Tampouco me cabe negar.
Não só pelo respeito ao que não alcanço
mas para não me privar da possibilidade da dúvida.
Meu ascender é inquietação mútua,
que, gestada na sede, é água barrenta.
Água pura não alimenta nossa loucura, caro amigo.
Quero essa sujeira mineral,
que seu asco despreza
que meu gesto represa
que nossa união multiplica.
Matemos a sede um do outro
para que tenhamos mais sede ainda;
a água não acabará.
Se ela é barrenta,
é porque brota do próprio seio da terra,
é porque tem para todos nós.

Grata a Rita, Marcelo e demais amigos semi-ébrios
pelo vinho a Baco, pelo barro a Oxóssi
e pela água compartilhada
sem destilar.
.
 

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