31 de agosto de 2011


Minha fantasia é fatídica!
Ela nunca esconde a agonia
que invento todo santo dia
junto com outro tanto de santos fictícios...

Já a minha realidade é quase macia:
acordo, ponho as lentes, os brincos,
a máscara,
e saio; o roteiro debaixo do braço.
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25 de agosto de 2011


Um tanto pouco de sono
e meu verso já delira em sonho
e finge lucidez pra validar o assombro
que me pinta a pálpebra relutante

mas eu cedo, adiante...
no meu dormir tem um desapego
que engana até o medo
e trás assim no dedo
uma rima insana, insone.

E nem venha me buscar sentido
nesse transe em delta sustenido;
tenho agora um abrigo
que me desobriga de explicar essa poesia.
Boa noite.
.

24 de agosto de 2011


Um tédio intenso que me morro
e extenso
que se beira em choro
e põe fogo nas orelhas
- ah, não há oceano que alente essas orelhas!
mas qualquer pouco drama,
seja pouco caso ou por acaso,
já afoga a íris.
.

Dizem que tudo na vida tem cura, exceto a morte.
Discordo.
Acho que nada na vida tem cura, exceto a própria vida.
Termina-se esta, vão-se todos os males com ela.
"Panacéia", é o sobrenome da morte.
Mas, ainda assim, esse tal de viver parece gripe:
cura-se aqui, volta adiante;
morre-se hoje, há de renascer amanhã...
É uma maldição dos infernos.
Então, já que nada, nem mesmo a vida, nem mesmo a morte, tem cura,
escarro na loucura que me é familiar.

Sim, hoje estou Dos Anjos.
Fantasio o dia em que me curarei da prosa;
se é pra morrer, que seja de mal de verso.
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18 de agosto de 2011


Se você espera de mim um posicionamento
já lhe adianto que não tenho espaço-tempo;
no meu estar bateu um vento
que me entortou até a rima.

E resultei assim:
meu pêndulo de sim-ou-não
é impreciso e arrítmico.
Minha decisão não tem órbita ou atmosfera...
ela paira, enquanto venera
esse transcorrer
que independe
do querer.
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13 de agosto de 2011


Acordei.
E andei em passo de pé de olho
desse olho que minha mãe diz que não tenho no pé
porque tropeço nas coisas até com o olho da cara aberto.
Olhei.
Vi em cor de textura seca
da mesma que a professora de fotografia
disse que era cor e que era luz
e que com o olho (da cara, e não do pé)
dava pra colorir um certo papel.
Falei.
Fiz o que é de academia e é louvável
porque a língua do homem
louva umbigos que brilham.
Parei.
É que tropecei (o olho do pé sempre fechado) num treco
que parecia em forma de eco
reverberando tal qual meu ego
sons que meu pé cego sempre chuta.
Voltei.
O olho do pé marejou, confuso
porque nada daquilo fazia sentido
quando o despertador tocava pela manhã.

Acordei.
E andei em passo de olho de éter
que privado de si mesmo, alcançou
as planícies do outro lado do cosmos.
Olhei.
Vi em cores de sem nome
que a foto não tem cor daquilo que eu procurava
pra fazer a foto mais linda do mundo;
aquela luz não dá pra prender em papel.
Calei.
O verbo é muito mínimo perto de compreensões
que sequer compreendo
mas que - veja - minha alma reconhece
sem precisar de ouvidos.
Andei.
Não há por que parar - e tampouco voltar -
quando a luz do não-verbo do olho de éter
me inunda o peito, me puxa pra frente.

Acordei.
Não há peito.
Não há olho, pé ou verbo.
Só há o... veja só, não há verso que traduza.
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7 de agosto de 2011


Aquilo que permanece velado
não é segredo a quem veleja em versos;
meu calar é só o resguardo
de um contentamento qualquer.
E sigo viagem com as velas soltas e o leme livre
(meu corpo vai na proa
e minha alma, no porão);
as cartas contaram o que a tripulação já sabia...
meu destino é divergente
ao sentido da bússola cardíaca.
.

4 de agosto de 2011


Me apaixonei por um certo verso;
e coitado do poeta que o pariu.
Persigo-o até hoje com juras de amor
"Rima-me, ó deleite decassílabo..."
Ai de mim nesse apego sem nexo.
Já o léxico que me pariu
se comunica por grunidos gurutais
e socos no próprio tórax.

Hei de ser parida um dia
em longos versos de cetim...
viverei e morrerei feliz
sobre a pele de um deus infeliz

Hei de um dia morrer apego e nascer verso
- e dará no mesmo...
viverei e morrerei infeliz
como todo amante ou poeta.
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