28 de julho de 2011

Quem me atura em verso sabe que sou de muitos pontos-vírgula - elemento pontuacional tão pouco compreendido, coitado. Eu sei, o ponto-e-vírgula é um trequinho muito esquisito em seu hibridismo desavisado; é que é não é nem uma coisa, nem outra, nem tantas outras, mas é um tanto dessas coisas todas ainda assim. Vou explicar...
Ele não é apenas um simples ponto, e pronto, porque não se finda em si, sendo assim livre desse fardo da conclusão irreversível. Tampouco é vírgula, pois seu suspiro é um tanto maior, daí ele precisa de mais tempo pra continuar continuando. Também não é reticência, em seu vagar de nuvem... Não. Nem é exclamação! Não cabe a ele a arrogância das certezas que se gritam.
Acho que também não chega a ser dois pontos: ele não é daqueles que se explicam depois de um pigarro anunciador de pedantismos. Não é travessão - não sai por aí atravessando os quês e os alguéns. Não é apóstrofo, pois ainda não tem o dom de ser gota que escorre na letra. Nem é interrogação. E por que seria, né? (Aliás, acho esse um sinal muito sensual, em sua curva duvidosa... mas isso não vem ao caso.)

Ponto-e-vírgula é o signo daquele pensamento que ficou no mundo das idéias e não desceu as escadas para o andar do papel. Ele é um voar nas coisas livres sem tirar os pés do chão (geralmente ele é descalço e pisa em gramas úmidas que fazem cosquinhas entre os dedos). É um vagar que roça as compreensões quase legítimas - mas que, estasiado em seu suspiro de insight místico, se contenta em expressar-se com um simples piscar de olho.
;)

26 de julho de 2011


Esse grunido que outrora me fora dor
agora é apenas o som familiar da minha paciência.
Meu estômago não ruge mais de fome;
o nome do que me sacia não se pronuncia de boca cheia
Nem é de carne que minha carne necessita:
minha fome e minha sede são de autocompreensão.
E se não sinto mais fome de ter fome
é porque o barulho da minha cabeça cheia
já é maior que o da minha barriga vazia.
Tenho fome de coisas etéreas...
e o ronronar do meu estômago
é só estado de contemplação.
.

23 de julho de 2011


A porta do transcendental me abriu.
E me abriu os olhos
me abriu um sorriso para as coisas que antes eu descreditava
me abriu o peito para que a cabeça se abrisse também.
De sua janela eu já via
que, lá fora, o dia
é lua e sol em lógica e mística
e a brisa leve que alenta meus cabelos
é a mesma que me sussurra segredos
que não são segredos;
são quereres adormecidos.
Em tom de terna claridade matutina
é também sempre manhã no lado de dentro das pálpebras.
Ah, sim, há uma chave pendurada em meus cílios...
A porta do transcendental me abriu.
Só me falta abri-la.
.

22 de julho de 2011


Eis que notam glamour no meu pesar...
A perplexidade agora é chique!
Viu só, amor? Banalizaram meu sofrimento.
Morri por dentro. Mas tô na moda.
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21 de julho de 2011



É de incerteza que eu faço meu repente;
o indubitável não é fonte de rima.
E quanto mais sei que nada sei
mais o paradoxo me corrói as tripas
e me configura em mais um poeta-caveira
cuja única certeza é a mortalidade do corpo.

Não faço rimas com certezas indubitáveis e ossos.
Faço com ócios.
.

9 de julho de 2011


Vê que pluraliza-me um singular anseio
de não ver multiplicado o meu receio
de estar dividida ao meio
e, no entanto, não ser dois...
Faço as contas para subtrair as dúvidas
pois com as certezas faço apenas dívidas
- ironias vívidas
da minha tabuada de aflições.

A ordem dos fatores não altera a agonia.
Mas consta na matemática das fisiologias
que, por mais que eu some,
permaneço uma só;
e ainda que eu me eleve ao quadrado
e ainda que eu me eleve o espírito
veja:
em pedaços, sou menor.
.

7 de julho de 2011


Cor e sons de escuridão
não escondem o que falta
Com a ponta dos dedos, tateio em direção
ao que não vai me dar resposta.
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4 de julho de 2011


Tenho o dom de acordar descabelada.
Mas quem não tem?
Quero ver acordar desapegada!

Outro dia tive um sonho assim
e acordava de verdade, pra nunca mais voltar a dormir...
Então acordei.
Descabelada mesmo.
*Foto: A.F., 2011.

Me contradigo até em poesia
quando antes ponho em prosa
a ambição de transcender;
e transgrido
sem motivo
e afirmo
em excesso
e transcorro
sem progresso
e regresso
sem crescer.
.

3 de julho de 2011


Outrora eu fora sã
- mas a poesia me curou.
.
 

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