17 de abril de 2011


De dia eu sempre fora quem esperavam que eu fosse. Eu pagava contas. Eu produzia o que era pra ser produzido, fazia o que devia ser feito. Dizia o que era esperado. Era previsível, estável, quase responsável. Eu me atrasava às vezes, mas compensava o atraso com hora extra.
Era à noite que o mal se instalava. Após o jornal, pronta para, teoricamente, dormir, eu praticava meu pecadilho. Trancava-me em meu mundinho secreto e me punha a absorver. Desfiava as horas de temperatura amena da madrugada com leituras, filmes, reflexões, e todo o tipo de baboseira similar. Me deliciava ao descobrir um novo filme, blogueiro ou poeta. Me punha a escrever o que me desse na telha. E ria alto, por dentro, de todas aquelas imensas levesas, até que um galo distante denunciasse minha infração, ao me despertar do transe literário.
E eu corria pra cama, pra tentar aproveitar o restinho de horas pra fabricar um sono malcriado, à pulso. Demorava a dormir, sonhava com poesia, acordava de má vontade. E me atrasava.
Mas compensava o atraso com hora extra.

Me pergunta por que verbos no pretérito? Só pelo prazer de contar mais uma história, de romancear. Mas não, nada mudou. Nunca.
E se afirmo, no presente do indicativo, que desde sempre e para sempre troco o dia pela noite, não é caso d'eu não estar lá de dia; é que à noite sei ser mais minha.

À noite o silêncio me litera.



*Devo parte desse texto a Iana. Em diversos aspectos. Obrigada, coisinha. =)

2 bedelhos:

Mel Andrade disse...

gente que sobrevive de seu avesso.

Mel Andrade disse...

verbos no pretérito tb me lembra gnt que escreve na terceira pessoa falando de si. oh wait.

 

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