27 de janeiro de 2011



Antes pensava que a principal característica do ariano fosse a tatibilidade. ‘Cê sabe, aquela coisa da exploração do toque, da pele, dos dedos... Agora cheguei à conclusão de que, na verdade, somos primordialmente visuais; e, observando, olhando, nós caímos a imaginar o tátil. Mas não só o tátil! Na sequência vem o olfativo, auditivo, gustativo, além, logicamente, do cognitivo, do semântico. Através da distância luxuriante do observar sem tocar, nossas caraminholas serelepes se põem a supor as mais infinitas possibilidades. O tátil é apenas uma parte dessa construção imaginativa baseada no desejo do elementar ígneo de áries. Adoramos ver e não ter: só pelo prazer de conquistar – e realizar. Bendita voluptuosa gula ocular!

26 de janeiro de 2011


Tocar sem poder pegar
Roçar sem poder bulir
Sentir o cheiro e não poder cafungar
Encostar e não poder mexer - e remexer
Ver aquela pele macia (uma pequena parte desnuda do corpo,
nuca, pescoço, ombros)
e não poder beijar
Observar e não poder de fato olhar
Estar ali, colado, grudado, quase apertado
aprisionado no desejo proporcionado pelo maldito calor humano
esse calor gostoso, cheiroso, tátil
e não poder nem agarrar.
E sofrer, por toda a eternidade de um percurso,
o castigo do limite que determina o que pode e o que não pode
num delicado momento como esse.

Ela, popozuda, prestando atenção à arquitetura lá fora.
Ele, teso, duro (duro!), suando frio, suando quente, nuca molhada, garganta seca, os olhos fixos naquela buzanfa filha da mãe.
Ela, de costas, alheia a todo aquele turbilhão de pensamentos e sensações.
Ele, a dois centímetros de seu objeto de desejo, salivando, resistindo, inerte.

Bem vindo ao transporte coletivo!
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15 de janeiro de 2011

Às vezes tenho uma intensa vontade de abraçar alguém... Mas não posso. É uma vontade pura e simples, desprovida de jogos, apenas movida pelo anseio da troca energética; e não é possível, pois 99% das pessoas interpretam um gesto que envolva um toque de corpos como uma ação que carrega em si uma sugestão de algo que esteja além daquele primeiro ato.
Um abraço inocente. Aconchegante, quente, macio. Sem pegadas estratégicas pela cintura ou roçadas sutis e sugestivas. Um envolver de braços afetuoso. Sem cantadas de pé-de-ouvido e cafungadas no pescoço. Um gesto de carinho, e não um pedido de carícias.
Não temos essa capacidade tão singela de sermos livres de subjetividade. Temos mania de complexidade. Tudo é baseado em jogos, códigos. E se você se apropria de um código sem modificar a legenda, entra na dança sem saber. Ninguém está isento dessas teias.
Não estou criticando o sexo, tampouco as delícias de tais jogos de sedução. Eles são, idubitavelmente, fantásticos. Mas... porra.
Queria ter a opção de pelo menos exercer minha afetusidade desinteressadamente, sem ter que temer às interpretações alheias e consequentes desencadeamentos de problemas de toda natureza. Queria um abraço. Longo; apertado. Só isso. E nada, nada mais.

13 de janeiro de 2011


Perdi o dom da poesia
junto com a inocência.

Quando eu nada sabia
mal sabia eu
que já sabia tudo
o que precisava saber...
Agora, gloriosamente acadêmica,
estou catedrática em tudo aquilo
que a alma menos necessita.

Nos tempos da inocência,
a poesia era mais sábia.

7 de janeiro de 2011


Sei que há meses abandonei o blog, e sei o quanto isso demonstra minha falta de compromisso comigo mesma. Sei também o quanto é estranho o sumiço de diversos posts "cômicos" que haviam aqui antes - sim, deletei-os. Mas tive lá meus motivos, concretos e/ou subjetivos, válidos ou descarados, para fazê-lo.
Voltando à rede, olho hoje os pedaços produzidos até aqui e me sinto envergonhada. O fato é que todo esse teatro de humores exibicionistas acerca de fofocas e agulhadas quentes não é meu ‘eu’ em legítimo. Eu poderia, inclusive, culpar às novas configurações sociais nas quais tenho vivido desde que entrei para a faculdade, ou à distância daqueles com os quais um dia realmente pude me sentir produtiva. Mas não culpo. Não posso me isentar de culpa colocando-a em outro organismo ou fato.
Talvez eu tenha, na verdade, sucumbido à minha própria insatisfação; ou talvez às confusões mentais às quais me vi submetida de repente. Camaleoa como sou, achei que me adequar seria conveniente, que partilhar do comum fosse me trazer satisfação. Fugi do que eu era realmente por temer que minha “nova rede” social fosse me menosprezar. Fui covarde e conveniente. E, para completar, agora estou sendo melodramática e chata.
Mas enfim.
De uns tempos pra cá, cansada de ter piadas prontas acerca das mesmas merdas, fui deixando pra lá essa mania de tentar ser blogueira, achando que já estava velha para tal, e que já estava na hora de me dedicar à vida acadêmica. Bobagem. Continuei suspirando pelos literatos que, ao contrário de mim, não abandonaram seus prazeres verdadeiros. E aos poucos, não sei por que motivo, fui redescobrindo aquele mundo esquecido dentro do qual, ainda que leigamente, sempre me senti tão bem.
Mas o estopim de toda essa revolta (re-volta?) foi descobrir, com agradável surpresa, uma poetisa que é hoje tão jovem quanto fui um dia. Não de idade; de espírito. Bebi das letras de seus posts vorazmente, enquanto patronos adormecidos revisitavam-me saudosamente a memória e o coração. E rindo das minhas recentes e singelas descobertas, fui me redescobrindo, ainda incompetente, mas, também, ainda apaixonada pela poesia e pela verdadeira literatura.
Percebi também que não devo adequar-me aos padrões dessa minha profissão que de boa fama nada tem – e veja que dessa mesma ela se apropria. Resolvi que não venderei meus princípios pelo preço de uma boa fofoca, que nada terá, jamais, a acrescentar à vida de qualquer indivíduo. E mais: decidi que de agora em diante serei desmedidamente o que realmente sou, ainda que não encante à massa consumidora de revistas de celebridades; sou das minorias. Sou dos baianos, dos homossexuais, dos naturebas, dos nerds, dos poetas. Chega de poses e câmeras teleobjetivas; sou de papel e lápis. Outra vez.
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