10 de abril de 2016


Se vai embora,
meu bem, nem chora,
pois não é de agora
que exercito a sua ausência.


13 de janeiro de 2016



A letargia que me invade
quando o ego me conduz
reflete a luz que compõe
meu quarto abafado.
Amarrado, esse ego,
ao que lhe foi emprestado
sob a condição de ser livre.
Arrasado, esse racional
que cansou de organizar emoções
como castelo de cartas na praia.
Assim, amar me parece dor
quando antes há o desejo infantil
de tudo ter em exclusividade.
A felicidade não se apaixona.
Ela paira nas ações daqueles
que abdicaram do corpo
para amar a todos
e não ter ninguém.
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11 de janeiro de 2016



No escuro do meu dormente apoetar fajuto
urge, quente e sujo, um desejo de ver o amor versado
pois pouco digo em dois ou três verbos mornos de afeto
quando me afeta o peito cada sorriso claro que você me dá.
Seu sono calmo me acalma os medos
e martela meus desejos na parede do meu quarto, que é seu
E adormeço sem sentir sentido
quando não tenho abrigo desse seu colo quente
Quase decente minha lembrança úmida
da sua presença fúlgura nos meus dias miúdos
E adormeço consolada na esperança
de que sua volta será anterior ao ápice da minha ânsia
Mas te anseio de longe, de perto
e de certo só me completa a alma quando me conecta o corpo
esse seu corpo lindo que é lido no meu tato
nesse meu quarto, que é seu.
.

30 de junho de 2015


Dito em silvos eruditos
as regras dos ditos versáveis
- tudo aquilo que tem cores versáteis
cujas formas sejam tortas como estrofes
escondidas em cofres de ar.
As ditas cujas
regram que todas as palavras são sujas
de suor, de grafite e de café,
e são somente para quem tem fé
na beleza míope das disparidades.
Erguem-se montanhas e cidades
no ori de todo ser vivo versador;
ele é capaz e amar com a mesmíssima dor
os seres malditos e os entes alados.
Consternados, seguem quase sempre calados
olhos ora em nuvem, ora estrelados
e se descalam, é pra chorar, pra orar
ou pra recitar amores inacabados.
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22 de fevereiro de 2015


Amar implica em qualquer coisa solta
que se prenda em teias ou em cabelos.
Se engana, no entanto, quem jura ser o amar
um sinônimo de poesia.
Cá estou, em não-amor, imóvel
como uma teia presa no coqueiro
- e de cabelos curtos...
Cá estou, aguardando que qualquer coisa solta
se prenda em mim.

Poesia é, pois, sinônimo de desamor.
Todo verso verte dor em qualquer que seja o tom,
que pode ser de saudosismo ou de visceração;
mas de felicidade não.

Quem ama não tem tempo pra fazer poesia.
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2 de fevereiro de 2015


O conhecer não conhece a pressa.
As euforias das horas são presas fáceis
para as falhas que se fazem falas;
fazem filas à porta do breu,
sobem, ígneas, o véu do ego.
O conhecer é das marés de Iansã
que molham os leitos sem amanhãs,
tardes e manhãs,
regando os ciclos e os pés.
O conhecer é cardial
e qualquer método que se grite
abafa os sussurros do universo.
.

17 de junho de 2014


Despoetizei.
Desfiz os laços com o belo
pra fechar um elo com o que urgia.
Desamei, e apática até da agonia
desarmei o que restava de anímico
pra viver o anêmico.
Agora me ocupo com barulho endêmico dos dias
que passam fotocopiados despertador-após-despertador.
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